Ao analisar a produção intelectual gerada nos tempos modernos sobre o mundo do trabalho, vemos que é possível dividi-la em duas grandes correntes ou tendências de ação e reflexão: o pensar mecanicista e o pensar orgânico. Se vistos pela ótica do filósofo Martin Buber, o pensar mecanicista se pauta pela relação Eu-Isso; e o pensar orgânico, pela relação Eu-Tu. Enquanto o pensar mecanicista sobre o trabalho tem suas raízes na aplicação do método científico aos processos produtivos, gerando uma relação do tipo sujeitoobjeto, o pensar orgânico provém da indagação filosófica acerca de que tipo de homem queremos formar (produtores de riqueza moral e material), que tipo de sociedade para cuja construção pretendemos contribuir com a formação deste tipo de homem (sociedade de confiança), que visão do conhecimento adotamos no dia-a-dia (união indissolúvel entre teoria e prática), que tipo de relação queremos estabelecer com a natureza e a sociedade na qual nos fazemos presentes (responsabilidade socioambiental, baseada em tecnologias limpas), que posicionamento ético colocamos para circular em nossos relacionamentos (a ética da responsabilidade baseada no Espírito de Servir).
A relação Eu-Isso é a base do taylorismo-fordismo e de seus descendentes. Nela, a relação entre os seres humanos assume a forma de relações entre coisas. A Organização, em vez de servir às pessoas (clientes, integrantes, fornecedores, comunidades, governo), serve-se das pessoas e organizações para a realização de seus próprios fins. Desde sua juventude, ainda estudante de engenharia, Norberto Odebrecht rejeita liminarmente as teses tayloristas da Organização Científica do Trabalho. Prefere buscar respostas no pensar orgânico, que lhe foi repassado por sua família e afirmado no convívio com os mestres-de-obras da empresa de seu pai. Essa forma de pensar fazia o jovem empresário ver nos mestres não seus instrumentos, mas seus interlocutores, para decidir, e seus parceiros, para agir, substituindo a relação Eu-Isso pela relação Eu-Tu, que, hoje, é a pedra angular dos Programas de Ação da Odebrecht, base da relação líder-liderado, entendida e vivenciada como relação educador-educando.
A filosofia de vida centrada na educação e no trabalho diz respeito à forma como o plano de vida, o plano de carreira e o negócio de cada um deve ser conduzido. O Espírito da Organização trata da vocação para o exercício do poder-serviço, que leva seus integrantes a se empenharem de forma dedicada e contínua na busca da “clientividade”: identificação, conquista, satisfação, surpreendimento e fidelização de cada vez mais, melhores e maiores clientes. A filosofia da Organização se expressa pela visão de homem, mundo, trabalho e conhecimento compartilhada entre seus integrantes em seus conceitos, princípios e critérios. Essa visão compartilhada assume as formas de alinhamento conceitual (mesma linguagem), alinhamento estratégico (visão de onde estamos, para onde vamos e o que devemos fazer para chegar lá), alinhamento operacional (cada integrante deve saber o que e o como fazer na condução de seu negócio), e, finalmente, o alinhamento espiritual, que possibilita às pessoas agirem sem orientação como se estivessem sob orientação.
O Espírito da Organização se relaciona mais com a sensibilidade, a intuição, a disposição para agir (sobrepondo a coragem à análise e o impacto à técnica) e a disponibilidade para servir a todos os públicos estratégicos para a sobrevivência da Organização: clientes, acionistas, integrantes, fornecedores, governo, comunidade. Quando a Filosofia e o Espírito organizacionais se amalgamam, temos a identidade da Organização consolidada de forma plena. Ela se torna verdadeiramente uma
pessoa de pessoas dotada de um DNA (essência estruturante intangível). Da porta para fora, essa identidade se expressa como marca, ou seja, território ocupado na sensibilidade e na consciência dos públicos estratégicos para sua persistência no tempo e ampliação no espaço. Da porta para dentro, ela se expressa como cultura, ou seja, um modo compartilhado por seus integrantes de ver, sentir, entender, decidir, agir, interagir e reagir, que os distingue dos integrantes de outras organizações congêneres, tornando-os únicos para seus clientes.
Uma Organização que se estrutura com base nessas concepções sustentadoras deve e merece ser vista e entendida como um todo organizado vivo.
*Pedagogo, Diretor-Presidente da Modus Faciendi, consultor, escritor, autor de vários livros e artigos. Ganhador do prêmio nacional dos direitos humanos em 1998.
Dirigiu a Escola FEBEM Barão de Camargos em Ouro Preto; foi Secretário de Administração deste município; Presidente da FEBEM/MG;
Secretário de Educação de Belo Horizonte; Diretor Executivo e Presidente do Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência; membro do Comitê Internacional dos Direitos da Criança (Genebra) e do Instituto Interamericano da Criança (Montevideo). Atuou também como consultor do UNICEF, OIT,
UNESCO, e várias outras organizações nacionais e internacionais, no Brasil, na América Latina, na Europa e na África.
Presta consultoria a diversas instituições do Terceiro Setor, entre as quais o Instituto Ayrton Senna e Instituto Alair Martins, do qual é o principal consultor.
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